Um pequeno instante

A idéia para esse texto me veio em mente enquanto voltava para casa hoje à noite, após o trabalho. É uma história simples e sem muitos rodeios. Resolvi escrevê-la após ver o Kabral recomendar lá no Plurk umas três vezes que eu usasse o tempo livre das férias para escrever algo. Enfim, boa noite! =)

Em média, duas pessoas morrem atropeladas por dia nas ruas de Belo Horizonte. Mas não é devido ao caos das grandes cidades, nem se trata da desatenção de quem trafega ou anda pelas largas avenidas. É tudo uma questão pura e simplíssima de destino, e daquilo que implica sair de casa todos os dias e desafiar as nuvens, o ar e a terra andando sobre esse mundo. Não se pode deter as horas, assim como não é possível parar a vida. O ritmo frenético das aceleradas dos carros, o êxtase da alta velocidade, o andar bamboleante de todos os pedestres… tudo conspira para o fim. Tudo é uma coluna que sustenta o apagar de uma vida e o início de uma saudade.

Eram onze horas da manhã, e chovia, quando Maíra saiu de casa. As gotas d’água lhe escorriam pelas costas, mas ele não ligava. Tinha andado afoito durante toda a semana, apenas esperando por esse dia, e hoje nem chuva nem obstáculo algum iria se colocar entre ele e seu objetivo.

Andava depressa pela calçada, sem prestar muita atenção nos passantes. Um, dois, três quarteirões ele andou, até chegar à avenida principal que cortava o bairro. Rodeada de árvores, vendas e quiosques, era também um lugar onde muitos carros passavam todos os dias. Maíra esperou o sinal para pedestres ficar verde e atravessou a avenida. Ao longe, ouviu uma freada brusca e um baque surdo. Não ligou para o barulho, apesar das pessoas terem voltado toda sua atenção para ele.

Cruzou mais dois quarteirões e finalmente chegou ao açougue. O dono do lugar logo notou sua presença e lhe deu, com um sorriso estampado no rosto, aquilo que ele viera buscar. Maíra refez veloz o caminho de volta para casa, segurando apertado junto de si o seu pequeno embrulho. Seria o presente que daria a Li, que há pouco tempo havia conhecido e, desde então, passara a amar profundamente. Ela fazia anos neste dia.

Ao chegar novamente à avenida, Maíra se deparou com uma grande aglomeração de pessoas, que formavam um círculo ao redor de um ponto no asfalto. Já estava atrasado para o encontro como Li, mas sua curiosidade foi maior. Abriu espaço entre as pernas das pessoas, enfiando sua cabeça por entre elas, e viu o que todos, mais altos do que ele, já enxergavam: um corpo ensangüentado de mulher estirado no chão, marcas de pneus no asfalto, pessoas chorando em profundo desespero, policiais e paramédicos fazendo seus trabalhos.

Maíra tratou de sair logo dali. Não era uma cena muito agradável de se ver, nem  exatamente motivadora para antes de um encontro romântico. Voltou à calçada e seguiu apressado para casa — tinha poucos minutos para se arrumar antes de Li chegar. Enquanto rearranjava o embrulho de papel com seu presente entre os dentes, perdeu por um momento a visão do passeio.  Ouviu, então, ao longe uma freada brusca, e mais distante ainda um baque surdo. Caiu de súbito no chão de concreto. Gania baixinho. O pequeno pacote que carregava consigo foi atirado longe, espalhando pedaços de salsicha pela rua.

Os olhos de Maíra tornaram-se opacos. Não entendia nada. Via as pessoas espantarem-se com o que havia acontecido, chamarem por ele e, logo depois, deixarem-no de lado. Assim como Maíra não prestava atenção à morte dos homens, também eles pouca importância davam à dele. Foi-se, assim, sem alarde e sem poder entregar seu presente àquela de quem gostava ou despedir-se dos que o haviam adotado tempos atrás.

Se todos os cães merecem o céu, tomara que haja, também, um lugar nele para Maíra.

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