Arquivo de julho \06\UTC 2008

O Sr. Biskies ganha uma casa

Este poema é levemente baseado no excelente livro “Uma casa para o Sr. Biswas”, de V.S. Naipaul. Segue um breve resumo dele retirado do Taverna.com.br:

Uma casa para o sr. Biswas passa-se em Trinidad e é inspirado na infância e adolescência do autor. A maior ambição de seu protagonista, Mohun Biswas – de origem hindu, ele é uma recriação ficcional do pai do autor -, é ter sua própria casa. A história desse personagem irremediavelmente deslocado é toda recheada de divertidíssimas peripécias, sempre girando em torno dessa eterna busca de um lar e de uma ocupação satisfatória. Em suas aventuras, está sempre às voltas com parentes, vizinhos e amigos intrometidos, que ora o atrapalham ora o ajudam em sua cruzada. “Uma obra de grande poder cômico, concebida com uma compaixão sólida e sem sentimentalismos” (Anthony Burgess).

O Sr. Biskies ganha uma casa

Biskies era um gato torto,
de olhos tortos,
pernas tortas,
focinho torto.
Biskies não era nada especial,
era um gato qualquer,
um bicho imundo
jogado num canto da casa,
miando chorosamente
por um copo de leite,
por uma elétrica gota
da essência da desessência.

A cabeça de Biskies, torta e rota,
ronronava como sua boca.
eram célebres seus delírios-desígnios,
célebre sua felinez em desencanto.
Biskies não comia ração, não comia nada,
só bebia. bebia uma fragrância félis,
extrato de urtigas flamejantes,
advinda do seio da mãe-gato,
da mãe-terra, da mãe-deus
que em sua casa o criava,
na qual o gato nunca roubara uma cena,
nem roubara nada na vida.
Continuar lendo ‘O Sr. Biskies ganha uma casa’

Um pequeno instante

A idéia para esse texto me veio em mente enquanto voltava para casa hoje à noite, após o trabalho. É uma história simples e sem muitos rodeios. Resolvi escrevê-la após ver o Kabral recomendar lá no Plurk umas três vezes que eu usasse o tempo livre das férias para escrever algo. Enfim, boa noite! =)

Em média, duas pessoas morrem atropeladas por dia nas ruas de Belo Horizonte. Mas não é devido ao caos das grandes cidades, nem se trata da desatenção de quem trafega ou anda pelas largas avenidas. É tudo uma questão pura e simplíssima de destino, e daquilo que implica sair de casa todos os dias e desafiar as nuvens, o ar e a terra andando sobre esse mundo. Não se pode deter as horas, assim como não é possível parar a vida. O ritmo frenético das aceleradas dos carros, o êxtase da alta velocidade, o andar bamboleante de todos os pedestres… tudo conspira para o fim. Tudo é uma coluna que sustenta o apagar de uma vida e o início de uma saudade.

Eram onze horas da manhã, e chovia, quando Maíra saiu de casa. As gotas d’água lhe escorriam pelas costas, mas ele não ligava. Tinha andado afoito durante toda a semana, apenas esperando por esse dia, e hoje nem chuva nem obstáculo algum iria se colocar entre ele e seu objetivo.

Andava depressa pela calçada, sem prestar muita atenção nos passantes. Um, dois, três quarteirões ele andou, até chegar à avenida principal que cortava o bairro. Rodeada de árvores, vendas e quiosques, era também um lugar onde muitos carros passavam todos os dias. Maíra esperou o sinal para pedestres ficar verde e atravessou a avenida. Ao longe, ouviu uma freada brusca e um baque surdo. Não ligou para o barulho, apesar das pessoas terem voltado toda sua atenção para ele.

Cruzou mais dois quarteirões e finalmente chegou ao açougue. O dono do lugar logo notou sua presença e lhe deu, com um sorriso estampado no rosto, aquilo que ele viera buscar. Maíra refez veloz o caminho de volta para casa, segurando apertado junto de si o seu pequeno embrulho. Seria o presente que daria a Li, que há pouco tempo havia conhecido e, desde então, passara a amar profundamente. Ela fazia anos neste dia.
Continuar lendo ‘Um pequeno instante’



Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.