O homem chegou à praça,
deu três voltas ao seu redor
e então suspirou. Olhou. Parou.
Retirou da mala o violino.
Afinou-o. Beijou-o. Tocou.
A vizinhança acordou de súbito,
logo abriu as janelas das casas
e acendeu suas luzes — todas.
O homem continuava na praça,
com o violino em punho,
cantando e contando sobre
um leão em Sião;
um barco no mar;
uma tenda nos céus.
A praça se encheu de gente,
gente muda, que só escutava
o coração do leão;
as ondas do mar;
a chuva nas nuvens.
O ar se aqueceu e o céu
se pontilhou de novas estrelas.
Um cheiro doce, como jasmim,
se espalhou pela praça e pelas casas.
O violinista sabia, mas não via.
O povo via, mas não sabia.
Ao redor do círculo de gente
uma outra gente se agrupava:
guerreiros vermelhos;
sereias pequenas e azuis;
deuses do ar e da luz.
A praça ainda se enchia de gente,
gente muda, que só escutava.
A voz retumbante do violinista
ecoava. Bradava. Não parava.
Todo coração se amolecia,
se fazia humano mais uma outra vez.
Era o canto brando e vaporoso
do homem que ama
e deixa-se amar
o que era ouvido na praça.
O músico — o violino — a vida,
tudo fazia sentido.
Todo o povo se movia em frenesi,
conforme o canto que ouviam
ganhava forma em sua mente
e no seu coração.
Suas mentes divagavam
por mundos de sonhos possíveis;
faziam-se vivas
como o dente-de-leão;
como o peixe-palhaço
ou o pássaro que migra no verão.
Fechavam os olhos e voavam,
abriam-nos e não voltavam.
O seu mundo, então entenderam,
era só o farelo de um algo maior.
O violinista sorriu;
a música parou. Cessou-se tudo.
O violino foi mais uma vez
beijado e guardado.
O músico se levantou,
rodeou três vezes a praça
e então suspirou. Olhou. Partiu.
Aquela gente acordou aos poucos,
e dando breves olhadelas cintilantes
uns para os outros
voltaram embriagados para suas casas.
Apagaram as luzes.
Fecharam as janelas.
Voltaram a dormir.
Os cavaleiros, as sereias e deuses
esfumaçaram-se e viraram o nada.
O cheiro do jasmim desapareceu
do ar e da praça.
A cidade mergulhou em silêncio,
o mesmo silêncio que antecede
o último grande mergulho.
Uma a uma as novas estrelas
foram se apagando
universo afora.
O ar voltou a ser somente morno,
o mundo tornu-se o mesmo de sempre,
mas o coração daquela gente,
ah, esses mudaram para sempre:
permaneceram sempre-vivos,
brilhando como uma chama no escuro
graças à lembrança perpétua
do dia em que descobriram
que o homem que ama
jamais morre, mesmo que
o fogo, a música, o conto
que o deu vida tenha cessado.
O músico deu a todos eles
o que faltava-lhe para
serem completos:
ver, e não somente crer,
em um lugar onde
pudessem ser felizes em paz,
lugar que só pode ser
enxergado e visitado
por aquele que sabe que,
no final das contas,
no fim tudo se resume a
O que a música não faz…
Tem muita gente por aí precisando desse violinista. ^^
Ai, ai… que lindo!
bjo edu! =*