Líu

Até que ponto estamos dispostos a abdicar de nossas próprias verdades para aceitar as dos outros?

— Havia uma menina, o nome dela era Líu. Ela gostava de Pink Floyd, muito bem. Tinha uns sete, oito anos, eu acho. Quem tinha? A Líu, obviamente. Continuando… a música preferida dela era Fat Old Sun, afinal de contas tinha uma história e tanto com essa canção. Quando Líu deu seu primeiro beijo, estava tocando Fat Old Sun no alto-falante da praça; quando Líu deu a luz à seu primeiro filho, estava tocando Fat Old Sun no walkman do médico; quando Líu se casou, estava tocando Fat Old Sun fora da Igreja. E, finalmente, quando Líu morreu, tocaram Fat Old Sun em sua homenagem.

Ora, que mentira! Como é? É uma grande mentira, essa história que você contou. Mentira…? Mas por quê? Por que você mesmo disse que Líu tinha apenas sete anos! Sete ou oito, foi o que eu disse. Não importa! O que quero dizer é: como uma menina de sete ou oito anos vai beijar, ter um filho, se casar e morrer? Bem, ela pode dar um beijo e morrer, e se casar também, se quiser. Mas e quanto a ter um filho?! É, isso ela não pode fazer. Viu! Sua história é uma grande mentira! Mas por que, camarada? Por que essa Líu não existe! Oras, claro que existe… eu a conheço. Não, você não conhece! Certo, eu não conheço a Líu, mas um amigo meu a conhece. Não, ele não conhece! Ok, ninguém sabe quem é Líu.

Ah! Então você admite que sua história é falsa? Não. Mas você disse que não conhece essa tal de Líu… Sim, eu disse. Então…?! Então que isso não significa que minha história seja falsa. Por quê? Porque os anos têm mais tempo do que você pode contar. Como assim? Não entendi… Certo, vou explicar: os anos têm mais tempo do que você pode contar! Você não explicou nada, só repetiu o que havia dito! Então, isso é uma explicação. Como assim? Eu disse que os anos têm mais tempo do que você pode contar, logo, para mim que sei como isso pode acontecer, está explicado. Mas eu não sei como isso pode acontecer, e exijo que você me explique! Ah, você não sabe? Não, não sei. Então como você pode dizer que Líu não existe se não pode contar o tempo em quatro anos de vida? Eu posso dizer que ela não existe pois você não a conhece e inventou essa história! E digo mais: quatro anos de vida têm exatamente 1460 dias, 35040 horas e 2102400 segundos. Logo esse é o tempo de vida de Líu! Não, não é. Como não é? É tudo matemático! Não estou nem aí para a matemática, meu camarada. Se você não pode enxergar além de marcas de tempo e espaço, então não serve para compreender a mentira que criei.

Haha! Então você admite que era uma mentira! Não, não admito. Mas você disse… Sim, eu disse. Então é uma mentira! Não, não é. E por quê não? Porque eu acredito nela. Mas eu não! Você não tem maturidade para crer ou não crer em nada. Haha! Não tenho, é? Eu sou um doutor, tenho um consultório, atendo gente! E ainda assim você acha que não tenho maturidade?! Exato, você não tem. Diga-me porque chegou a essa conclusão, então! Simples: você não sabe contar. Lógico que sei! Óbvio que sei! Veja só: 1, 2, 3, 4… Certo, agora conte em números geométricos. Números o quê? Geométricos. O que é isso? Viu, você não sabe contar. Não, me explique o que são números geométricos que eu conto pra você, eu posso fazê-lo! Não, você não pode. E por que não seu filho de uma… Por que você não tem maturidade.

Ai, me diga de uma vez: o que te leva a crer que não tenho maturidade?! Como já disse, é simples: você não sabe contar. Meu Deus! Eu já contei pra você: 1, 2… não, quero números geométricos. Mas eu não sei o que é isso! Então, conseqüentemente, não sabe contar. Eu vou-me embora… Para Pasárgada? Deixe de ser idiota, não sou Bandeira! Exatamente, não tem competência para sê-lo. Meu senhor, passar bem, vou-me. Au revoir! Então vá, n’oubliez pas la logique. Ah, você falas francês! Até que enfim algo em comum entre nós dois. Não foi francês, foi geométriquico. Ah, vá se catar, meu senhor! Eu vou seguir meu caminho, e que o senhor siga o seu; adeus!

“Além de Fat Old Sun, Líu gostava…” Ah, é só eu dar as costas que o senhor continua a história, não é? É, sim. E porquê? Você usa muito porquês. É um direito meu. Não, não é. Ah, não? O que são direitos para você então, sabichão? Direito é o que permite que eu viva em meu mundo, com Líu, números e línguas geométricas, e você no seu, com porquês, lógica e seu consultório. Ah, agora filosofou; está querendo dizer que eu não te dou o direito de ser como é! Não, não estou. Então o que quis dizer? Quis dizer e deixar implícito que você não tem de me dar nada, pois direito não se conquista, o direito é eterno e nato; entretanto, não é direito meu interferir no seu direito, e vice e versa, coisa que o senhor está fazendo. Isso foi o que quis dizer. Entendo… Então agora acredita em Líu? Não. E no que acredita? No seu direito de crer nela.

Disse que era médico. Preciso me consultar, quanto é? Nada, faço para o senhor de graça. Obrigado!

Um pequeno parágrafo sobre moral diria que essa é uma fábula sobre o direito do homem de ter seu direito de fazer o que quer sem ter o direito de interferir no direito (ou arbítrio) de outros homens. Eu diria que não é uma fábula, mas sim a história da vida e morte de Líu. As discussões sobre a verdade e a mentira, a crença e a não-crença, foram incluídas apenas para prolongar o relato. O fato é que uma história sobre uma criança imaginária deixa de ser uma história sobre uma criança imaginária quando passamos a querer impor aquilo que achamos certo à pessoa que conta a história – a interferir no direito do outro de contá-la como ele a vê. Entretanto, há momentos em que o que está em jogo não é o direito dos outros, mas sim a sua consciência. O contador de histórias, por exemplo, fez com que o doutor enxergasse seu erro interferindo no direito desse de errar. O que acontece é que muitas vezes esquecemos porquê diabos temos a capacidade de mudar certos aspectos na vida de outra pessoa, e acabamos usando essa capacidade unicamente para que essa pessoa concorde com nossas idéias a todo e qualquer custo. Isso é um erro, se quer saber. O meu direito termina onde o seu começa, mas o meu direito, nem o seu, não devem terminar, devem ser infinitos. Isso quer dizer uma coisa absurdamente simples e nada complexa: preservar a integridade dos homens é garantir que eles tenham o poder de pensar por si próprios. Não é dar a cada um deles um canto no mundo onde possam ficar sozinhos e refletir sobre determinados assuntos, mas sim garantir que uma pessoa sempre ajudará a outra na busca pela liberdade de pensamento, a liberdade de expressão, a liberdade de conduta. Isso seria um caos, uma vez que os direitos não teriam fim? Sim, seria, mas um caos que não é controlado por um único homem, e sim por todos. A evolução do homem não depende de fatores isolados, mas da relação de todos eles em uma comunidade talvez um pouco grande e emaranhada, porém que aos poucos vai se organizando conforme nós vamos progredindo nas relações com outros seres, a ponto de chegar um momento em que digamos “ei, quer saber, vamos abolir os direitos individuais!” sem que isso seja sinônimo de um Golpe de Estado, ou uma Ditadura. Numa sociedade unida pelo propósito do crescimento mútuo essa frase significaria que o homem não precisaria mais de termos para se organizar, não necessitaria de uma definição de “direito” para que esse fosse seguido ou defendido. Nessa realidade utópica e ficcional, nós, homens, teríamos atingido tal ponto em nossa escala evolutiva que a única palavra que teríamos de respeitar seria… nada. Não o termo “nada”, mas sim nada, como em “nada de nada”. Não haveria respeito, pois respeito é apenas um termo, um nome dado a um sentimento ou pensamento. O que haveria é o senso de que, uma vez que meu próximo é também um ser-humano, não pode ser tratado apenas com palavras, ou mesmo tido como o conjunto de algumas expressões que não abrangem a totalidade do que o homem representa – ele deverá ser tratado com consciências. Na verdade, as próprias palavras dariam lugar às consciências, o que quer dizer que chegaríamos a tal ponto em nossa história evolutiva humana que seríamos capazes de conviver com outros homens sem criar guerras, sem gerar desrespeito, preconceito e outros tipos de exclusão ou mal à nossa própria espécie: deixaríamos de rotular sentimentos e pensamentos para podermos usá-los, e viveríamos em conjunto com nossos irmãos, desejando apenas existir, mas existir em conjunto.

Ou, em outras palavras mais polidas,“homem” deixaria de ser apenas uma outra palavra para “macaco”.

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