Arquivo de 29 junho, 2008

Líu

Até que ponto estamos dispostos a abdicar de nossas próprias verdades para aceitar as dos outros?

— Havia uma menina, o nome dela era Líu. Ela gostava de Pink Floyd, muito bem. Tinha uns sete, oito anos, eu acho. Quem tinha? A Líu, obviamente. Continuando… a música preferida dela era Fat Old Sun, afinal de contas tinha uma história e tanto com essa canção. Quando Líu deu seu primeiro beijo, estava tocando Fat Old Sun no alto-falante da praça; quando Líu deu a luz à seu primeiro filho, estava tocando Fat Old Sun no walkman do médico; quando Líu se casou, estava tocando Fat Old Sun fora da Igreja. E, finalmente, quando Líu morreu, tocaram Fat Old Sun em sua homenagem.

Ora, que mentira! Como é? É uma grande mentira, essa história que você contou. Mentira…? Mas por quê? Por que você mesmo disse que Líu tinha apenas sete anos! Sete ou oito, foi o que eu disse. Não importa! O que quero dizer é: como uma menina de sete ou oito anos vai beijar, ter um filho, se casar e morrer? Bem, ela pode dar um beijo e morrer, e se casar também, se quiser. Mas e quanto a ter um filho?! É, isso ela não pode fazer. Viu! Sua história é uma grande mentira! Mas por que, camarada? Por que essa Líu não existe! Oras, claro que existe… eu a conheço. Não, você não conhece! Certo, eu não conheço a Líu, mas um amigo meu a conhece. Não, ele não conhece! Ok, ninguém sabe quem é Líu.

Ah! Então você admite que sua história é falsa? Não. Mas você disse que não conhece essa tal de Líu… Sim, eu disse. Então…?! Então que isso não significa que minha história seja falsa. Por quê? Porque os anos têm mais tempo do que você pode contar. Como assim? Não entendi… Certo, vou explicar: os anos têm mais tempo do que você pode contar! Você não explicou nada, só repetiu o que havia dito! Então, isso é uma explicação. Como assim? Eu disse que os anos têm mais tempo do que você pode contar, logo, para mim que sei como isso pode acontecer, está explicado. Mas eu não sei como isso pode acontecer, e exijo que você me explique! Ah, você não sabe? Não, não sei. Então como você pode dizer que Líu não existe se não pode contar o tempo em quatro anos de vida? Eu posso dizer que ela não existe pois você não a conhece e inventou essa história! E digo mais: quatro anos de vida têm exatamente 1460 dias, 35040 horas e 2102400 segundos. Logo esse é o tempo de vida de Líu! Não, não é. Como não é? É tudo matemático! Não estou nem aí para a matemática, meu camarada. Se você não pode enxergar além de marcas de tempo e espaço, então não serve para compreender a mentira que criei.

Continuar lendo ‘Líu’



Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.