O Sr. Biskies ganha uma casa

Este poema é levemente baseado no excelente livro “Uma casa para o Sr. Biswas”, de V.S. Naipaul. Segue um breve resumo dele retirado do Taverna.com.br:

Uma casa para o sr. Biswas passa-se em Trinidad e é inspirado na infância e adolescência do autor. A maior ambição de seu protagonista, Mohun Biswas – de origem hindu, ele é uma recriação ficcional do pai do autor -, é ter sua própria casa. A história desse personagem irremediavelmente deslocado é toda recheada de divertidíssimas peripécias, sempre girando em torno dessa eterna busca de um lar e de uma ocupação satisfatória. Em suas aventuras, está sempre às voltas com parentes, vizinhos e amigos intrometidos, que ora o atrapalham ora o ajudam em sua cruzada. “Uma obra de grande poder cômico, concebida com uma compaixão sólida e sem sentimentalismos” (Anthony Burgess).

O Sr. Biskies ganha uma casa

Biskies era um gato torto,
de olhos tortos,
pernas tortas,
focinho torto.
Biskies não era nada especial,
era um gato qualquer,
um bicho imundo
jogado num canto da casa,
miando chorosamente
por um copo de leite,
por uma elétrica gota
da essência da desessência.

A cabeça de Biskies, torta e rota,
ronronava como sua boca.
eram célebres seus delírios-desígnios,
célebre sua felinez em desencanto.
Biskies não comia ração, não comia nada,
só bebia. bebia uma fragrância félis,
extrato de urtigas flamejantes,
advinda do seio da mãe-gato,
da mãe-terra, da mãe-deus
que em sua casa o criava,
na qual o gato nunca roubara uma cena,
nem roubara nada na vida.
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Um pequeno instante

A idéia para esse texto me veio em mente enquanto voltava para casa hoje à noite, após o trabalho. É uma história simples e sem muitos rodeios. Resolvi escrevê-la após ver o Kabral recomendar lá no Plurk umas três vezes que eu usasse o tempo livre das férias para escrever algo. Enfim, boa noite! =)

Em média, duas pessoas morrem atropeladas por dia nas ruas de Belo Horizonte. Mas não é devido ao caos das grandes cidades, nem se trata da desatenção de quem trafega ou anda pelas largas avenidas. É tudo uma questão pura e simplíssima de destino, e daquilo que implica sair de casa todos os dias e desafiar as nuvens, o ar e a terra andando sobre esse mundo. Não se pode deter as horas, assim como não é possível parar a vida. O ritmo frenético das aceleradas dos carros, o êxtase da alta velocidade, o andar bamboleante de todos os pedestres… tudo conspira para o fim. Tudo é uma coluna que sustenta o apagar de uma vida e o início de uma saudade.

Eram onze horas da manhã, e chovia, quando Maíra saiu de casa. As gotas d’água lhe escorriam pelas costas, mas ele não ligava. Tinha andado afoito durante toda a semana, apenas esperando por esse dia, e hoje nem chuva nem obstáculo algum iria se colocar entre ele e seu objetivo.

Andava depressa pela calçada, sem prestar muita atenção nos passantes. Um, dois, três quarteirões ele andou, até chegar à avenida principal que cortava o bairro. Rodeada de árvores, vendas e quiosques, era também um lugar onde muitos carros passavam todos os dias. Maíra esperou o sinal para pedestres ficar verde e atravessou a avenida. Ao longe, ouviu uma freada brusca e um baque surdo. Não ligou para o barulho, apesar das pessoas terem voltado toda sua atenção para ele.

Cruzou mais dois quarteirões e finalmente chegou ao açougue. O dono do lugar logo notou sua presença e lhe deu, com um sorriso estampado no rosto, aquilo que ele viera buscar. Maíra refez veloz o caminho de volta para casa, segurando apertado junto de si o seu pequeno embrulho. Seria o presente que daria a Li, que há pouco tempo havia conhecido e, desde então, passara a amar profundamente. Ela fazia anos neste dia.
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A Praça

O homem chegou à praça,
deu três voltas ao seu redor
e então suspirou. Olhou. Parou.
Retirou da mala o violino.
Afinou-o. Beijou-o. Tocou.
A vizinhança acordou de súbito,
logo abriu as janelas das casas
e acendeu suas luzes — todas.
O homem continuava na praça,
com o violino em punho,
cantando e contando sobre
um leão em Sião;
um barco no mar;
uma tenda nos céus.
A praça se encheu de gente,
gente muda, que só escutava
o coração do leão;
as ondas do mar;
a chuva nas nuvens.
O ar se aqueceu e o céu
se pontilhou de novas estrelas.
Um cheiro doce, como jasmim,
se espalhou pela praça e pelas casas.

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Líu

Até que ponto estamos dispostos a abdicar de nossas próprias verdades para aceitar as dos outros?

— Havia uma menina, o nome dela era Líu. Ela gostava de Pink Floyd, muito bem. Tinha uns sete, oito anos, eu acho. Quem tinha? A Líu, obviamente. Continuando… a música preferida dela era Fat Old Sun, afinal de contas tinha uma história e tanto com essa canção. Quando Líu deu seu primeiro beijo, estava tocando Fat Old Sun no alto-falante da praça; quando Líu deu a luz à seu primeiro filho, estava tocando Fat Old Sun no walkman do médico; quando Líu se casou, estava tocando Fat Old Sun fora da Igreja. E, finalmente, quando Líu morreu, tocaram Fat Old Sun em sua homenagem.

Ora, que mentira! Como é? É uma grande mentira, essa história que você contou. Mentira…? Mas por quê? Por que você mesmo disse que Líu tinha apenas sete anos! Sete ou oito, foi o que eu disse. Não importa! O que quero dizer é: como uma menina de sete ou oito anos vai beijar, ter um filho, se casar e morrer? Bem, ela pode dar um beijo e morrer, e se casar também, se quiser. Mas e quanto a ter um filho?! É, isso ela não pode fazer. Viu! Sua história é uma grande mentira! Mas por que, camarada? Por que essa Líu não existe! Oras, claro que existe… eu a conheço. Não, você não conhece! Certo, eu não conheço a Líu, mas um amigo meu a conhece. Não, ele não conhece! Ok, ninguém sabe quem é Líu.

Ah! Então você admite que sua história é falsa? Não. Mas você disse que não conhece essa tal de Líu… Sim, eu disse. Então…?! Então que isso não significa que minha história seja falsa. Por quê? Porque os anos têm mais tempo do que você pode contar. Como assim? Não entendi… Certo, vou explicar: os anos têm mais tempo do que você pode contar! Você não explicou nada, só repetiu o que havia dito! Então, isso é uma explicação. Como assim? Eu disse que os anos têm mais tempo do que você pode contar, logo, para mim que sei como isso pode acontecer, está explicado. Mas eu não sei como isso pode acontecer, e exijo que você me explique! Ah, você não sabe? Não, não sei. Então como você pode dizer que Líu não existe se não pode contar o tempo em quatro anos de vida? Eu posso dizer que ela não existe pois você não a conhece e inventou essa história! E digo mais: quatro anos de vida têm exatamente 1460 dias, 35040 horas e 2102400 segundos. Logo esse é o tempo de vida de Líu! Não, não é. Como não é? É tudo matemático! Não estou nem aí para a matemática, meu camarada. Se você não pode enxergar além de marcas de tempo e espaço, então não serve para compreender a mentira que criei.

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A casa e o mar

A casa era, de fato, consumada como um ato e exemplo da grandiosidade humana, encerrada em uma pedra, mas aberta e exposta ao resto do mundo como um porto, um cais, aonde viessem pousar os pensamentos e assossegar os corações, se se permitisse a ela a constância de um momento sem muitas atribulações, pois era, ainda irrevogavelmente, uma casa d’homens e, como tal, assediada sem pausas para descansos pelas vontades desses.

Se o firmo do seu sopé e vergalhão era como o barulho surdinho do mar, não se sabe, ou melhor, se sabe, mas do que adianta? Que o mar é como a croncretitude de uma ação inabalável, verdade seja dita, é fato, pois suas ondas e remexeções o abalam, mas não o calam, nem com ele terminam. Mas a casa, se concreta assim é, se a força que a mantém também vem de seus abalos interiores, eu que sei? Eu não sei.

Eu vi, vim, passei, mas as casas se mantêm após seus donos, tremeses duram intactas, só acumulando particulinhas do fim, a poeira-da-areia, o picumã de um descaso insosso dos novos (se tiverem novos) donos e, ao fim dos meses, cai sua resistência e elas se entregam ao tempo, quebrantando suas formas parede a parede. Mas duram. Quando caem, ainda lhes resta a base. Quando essa, então, se vai, ainda lhes sobra o tempo.

Que casas não são concretas, mas duradouras para além da história, há de se saber todos os que interesse tiverem em discernir o que é casa do que é mar, o que é lar do que é tenebroso, o que é briga do que é paz. Se se disser do mar algo ruim, que antes lhes seja lembrada a casa. Não! Que, se se disser do mar algo ruim, que antes lhes sejam lembrados os homens e aquilo que constroem, pois as casas são dos homens, como esses são da terra. Se à terra eles voltam, aos homens é que elas, as casas, vão, seguem, prosseguem.

A casa não dura no chão, o tempo é que absorve as grandes paredes e a elas põe fim. Se se souber de alguém que viveu além da sua casa, que se saiba também que de vida, devidas as proporções do fato, é que esse não vive mais. O devir, devemos ir, sempre ao encontro de nós, sempre ao encontro do nosso… sempre ao encontro pode-se ir sem o lar, como sem o mar, e ao abandono deixar o que é nosso. Se soubermos o que é.

O mar engole o recife, alaga os pés, o bucho. Mas é o mar, senão, o que será?, que alimenta a segunda alma, a que não mostramos à ninguém, a que dividimos em quatro, cinco partes, para não, para, acredite, podermos ver que são pulos os risos e maneiros dessas linhas gerais que traçamos por nós. Pense em linhas que, se se esquecer do mundo, da casa, do mar, das linhas que traçastes não te esquecerás jamais!

Pois de linhas são feitas as casas, as que não foram feitas, só postas, e as que não foram postas, só erguidas. Soerguidas, diga!, imagine se soerguidas são as casas, pois eu digo não: estão no mar, ao nível do mar, a não ser que ele, e nada mais, as levante aos céus, até onde tocam o firmamento e dizem “ah, mas que zona!” ao olhar para a terra. Diga que os rios são mares, que o rio grande é isso, o mar, pois, se não, o que é rio, e o que é mar? E, suspiro, santo é aquele que contar as casas dentre as ilhazinhas dos grandes rios. Homem de bem, diferente e mais sábio que aqueles que constroem casas sem saber que mexem com o tempo, transgridem o vento, são sempre, mas também nunca!, artífices de si e do mundo. E eu, que não conto ganhar os medos dos que vieram antes de mim, mas os risos que ecoam nas, e entre as, paredes…

Se se esquecer de tudo, volte para casa tomando o caminho das águas, mas devolva-o quando acabar de usar, pois ele segue até o mar… ele segue até o mar. Ninguém te segue até lá. Que, se para terminar for a vida, o tempo se encarregue de fazê-la, também, uma outra casa nova.

Mas, ouça, ainda não é tempo de paz. Vozes ecoam com o raiar da alvorada.

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Primeiro texto e conto deste blog. Vamos ver se vai pra frente! =)